O mês de janeiro vem registrando, nos últimos anos, um movimento que tem transformado a rotina do varejo: o aumento expressivo das solicitações de trocas e devoluções de produtos após o período de festas de fim de ano. De acordo com a National Retail Federation (NRF), em parceria com a Happy Returns, os varejistas estimam que a taxa de devoluções no período de festas de fim de ano seja, em média, 17% maior do que a taxa anual de devoluções, refletindo o impacto direto do pós-festas sobre as operações do varejo.
Em 2024, as compras online em todo o mundo durante as festas de final de ano atingiram um recorde de 1,2 biliões de dólares, um aumento de 3% em relação ao ano anterior, conforme dados da Salesforce, a partir de uma análise de dados agregados da atividade de 1,5 mil milhões de consumidores em mais de 89 países. A mesma pesquisa aponta que houve um aumento de 28% na taxa de devoluções em comparação com o ano anterior.
O fenômeno, intensificado pelas compras de Natal e Black Friday, tem impulsionado a relevância da logística reversa e fortalecido a cadeia de recommerce, a recomercialização de produtos devolvidos. Esse cenário reflete uma combinação de fatores, como a mudança de hábito do consumidor, a expansão acelerada do e-commerce e a exigência por experiências de compra mais completas e transparentes.
De acordo com dados da Invesp, cerca de 30% dos produtos comprados online são devolvidos, percentual significativamente superior ao registrado no varejo físico, onde a taxa gira em torno de 8,89%. Já a Associação Brasileira de Empresas de Reciclagem de Pneus Inservíveis (Abrerpi) estimava que o setor de logística reversa cresceria 10% ao ano, com potencial de movimentar aproximadamente R$ 140 bilhões até o fim de 2025.
Para Thiago da Mata, CEO da Kwara, marketplace especializado na venda de ativos, esse cenário tem impacto direto na operação logística e, principalmente, na gestão de estoque dos varejistas.
“A maior dor não está no transporte, mas no custo do estoque parado. O varejista fica com o armazém cheio de produtos devolvidos, sem tempo de reiniciar o ciclo para colocar o item novamente à venda. O pós-festas, especialmente janeiro, concentra um volume muito maior de trocas e devoluções, o que pressiona diretamente estoque, logística e caixa. E é quando esse fluxo não é bem gerido que ele vira custo para a empresa. Porém, ao adotar uma estratégia de logística reversa e recommerce, esses produtos voltam a gerar valor e eficiência para o varejo”, analisa.
Crescimento das trocas no pós-Natal: mais do que sazonalidade
O aumento do fluxo de trocas e devoluções logo após o Natal vai além de um movimento sazonal. Ele é reflexo direto do volume recorde de compras concentrado no último trimestre do ano — impulsionado por Black Friday, presentes e bonificações — aliado a um consumidor cada vez mais pragmático e consciente de seus direitos.
“O recommerce ajuda o varejista a recuperar valor de produtos devolvidos que, de outra forma, ficariam parados ou seriam até mesmo descartados, gerando impacto financeiro e ambiental. Com um processo bem estruturado, é possível reduzir perdas, liberar capital imobilizado em estoque e melhorar a eficiência da operação como um todo, transformando um custo inevitável em uma alavanca de resultado.”, afirma Thiago da Mata.
O papel da logística reversa no Brasil hoje
Na prática, a logística reversa é definida como o conjunto de ações destinadas a recolher produtos usados ou devolvidos e reinseri-los no ciclo produtivo ou dar a eles uma destinação ambientalmente adequada. No Brasil, o conceito é um dos pilares da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), marco legal que promove a economia circular e busca reduzir a pressão sobre aterros e a geração de resíduos.
Esse movimento tem gerado impactos que vão além da eficiência operacional do varejo e alcançam diretamente o meio ambiente. Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta que 85% das indústrias brasileiras já adotam práticas de economia circular, enquanto 68% das empresas acreditam que essas iniciativas contribuem para a redução das emissões de gases de efeito estufa.
Na mesma direção, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estima que manter materiais por mais tempo na economia por meio de reutilização, reaproveitamento ou reciclagem pode reduzir em até 33% as emissões de dióxido de carbono incorporadas aos produtos.
Segundo Thiago da Mata, essa mudança estrutural também ampliou a aceitação do consumidor por produtos oriundos dessa mesma característica. “Os leilões digitais de logística reversa têm ampliado as possibilidades para produtos devolvidos ao conectá-los de forma eficiente à economia circular. Esse modelo contribui para a formação de um mercado secundário mais estruturado, oferecendo liquidez organizada para o varejo e novas oportunidades de acesso para quem compra”, observa.
Segundo dados da Kwara, o valor total arrematado em leilões de itens oriundos da logística reversa cresceu 750% no primeiro trimestre de 2025, na comparação com o mesmo período de 2024. No recorte semestral, a evolução também foi consistente: entre o primeiro e o segundo semestre de 2024, o crescimento foi de 4,8 vezes. Ao longo de 2024, a empresa realizou mais de 100 leilões, somando mais de 200 mil itens leiloados em 13 estados brasileiros.
Recommerce: oportunidade de ativos devolvidos
A logística reversa é a base que sustenta o avanço do recommerce, um mercado que converte devoluções em novas oportunidades de consumo. Com processos mais ágeis e estruturados, os produtos retornam rapidamente ao mercado ainda em excelente estado e com valor comercial.
“O fortalecimento da logística reversa permite recuperar itens praticamente novos, como geladeiras, sofás ou notebooks devolvidos dentro do prazo de arrependimento e reinseri-los no mercado de forma eficiente”, explica o CEO da Kwara.
Esse modelo amplia a oferta e a diversidade no mercado secundário e contribui para consolidar a confiança do consumidor em produtos seminovos ou recondicionados, especialmente quando comercializados por canais organizados, como os leilões online. Para o varejista, esses canais vêm se firmando como ferramentas estratégicas para liberar estoque ocioso e recuperar valor.
“Antes, a preocupação era quanto custaria descartar um produto. Hoje, a discussão passa a ser quanto ele ainda pode gerar de receita”, resume Thiago.
Logística reversa e recommerce como alavancas para o varejo no pós-festas
No período pós-festas, a logística reversa assume um papel central ao permitir que o volume elevado de devoluções seja reorganizado e rapidamente reinserido no mercado. Com processos bem estruturados, esse fluxo contribui para maior eficiência operacional e sustenta a expansão do recommerce, transformando produtos devolvidos em ativos com potencial de reaproveitamento.
De acordo com Thiago da Mata, a integração entre logística reversa e recommerce fortalece um modelo de economia circular mais consistente no varejo brasileiro, com os produtos circulando entre diferentes consumidores ao longo do tempo, preservando valor comercial e ampliando sua vida útil.
“Esse modelo reduz desperdícios, otimiza o uso de recursos e melhora a eficiência da operação. Para o varejo, dominar todo o ciclo — da venda ao reaproveitamento dos produtos devolvidos — amplia a capacidade de geração de valor ao longo do tempo”, afirma o executivo.
Com o crescimento contínuo do e-commerce e a consolidação da combinação Black Friday e Natal como importantes catalisadores de devoluções, mercados secundários e leilões digitais tendem a ganhar ainda mais relevância. Esses canais oferecem liquidez, ampliam o acesso a produtos e reforçam o recommerce como uma estratégia sustentável de geração de valor no pós-festas.

