A digitalização acelerada dos processos corporativos trouxe um efeito colateral alarmante: a cadeia de suprimentos tornou-se um dos vetores de ataques cibernéticos mais críticos da atualidade. O alerta vem de especialistas do setor, que apontam uma mudança na estratégia dos criminosos digitais: em vez de atacar as “fortalezas” das grandes corporações, o alvo agora são os fornecedores menores — muitas vezes o elo mais frágil da segurança digital.
O tema, que antes ficava restrito aos departamentos de TI, ascendeu para as salas de reunião dos conselhos de administração. Segundo análises de mercado, os ataques indiretos já representam uma preocupação do mesmo nível de instabilidades geopolíticas e guerras tarifárias. Cerca de 29% dos gestores de cadeias de suprimentos em setores críticos, como energia, manufatura e tecnologia, relatam um aumento significativo nesses incidentes.
A estratégia do “Cavalo de Troia”
A lógica dos invasores é pragmática. Grandes empresas costumam ter defesas robustas, mas estão interconectadas a centenas de parceiros comerciais.
“A realidade é que, enquanto muitas empresas investem corretamente em suas defesas internas, quem explora as vulnerabilidades não mira nos sistemas fortes, mas nos elos mais fracos que têm acesso às redes corporativas maiores”, explica Fernanda Amaral, gerente territorial da Achilles no Brasil, multinacional especializada em gestão de riscos.
Essa interdependência cria um efeito cascata. Uma vez comprometido, um fornecedor pequeno pode servir de ponte para o roubo de dados sensíveis ou a paralisação de operações de uma multinacional.
O preço da vulnerabilidade
Os dados financeiros reforçam a urgência do tema. Relatórios globais indicam que o custo médio de um ataque cibernético gira em torno de US$ 3,6 milhões (aproximadamente R$ 18 milhões).
Mais do que o prejuízo financeiro imediato, o impacto na continuidade dos negócios é devastador: as organizações podem levar, em média, 280 dias para restabelecer plenamente suas operações após uma invasão severa. Esse cenário coloca riscos cibernéticos à frente de catástrofes naturais e pandemias na lista de maiores temores corporativos.
De problema técnico a pilar de governança
Diante desse cenário, a segurança cibernética deixou de ser apenas uma questão de firewall e antivírus para se tornar um pilar estratégico de Governança Corporativa e ESG.
Para mitigar esses riscos, o mercado tem adotado novas diretrizes que incluem:
- Monitoramento Contínuo: Uso de ferramentas que pontuam o risco cibernético (risk scoring) dos parceiros em tempo real.
- Auditorias Regulares: Avaliação constante da maturidade digital de terceiros.
- Cultura de Segurança: Treinamento de equipes e exigência de conformidade como pré-requisito contratual.
“Uma brecha em um fornecedor pode custar milhões e bloquear operações inteiras”, alerta Fernanda Amaral. A mensagem para o mercado é clara: no século XXI, a resiliência de um negócio depende diretamente da segurança digital de toda a sua rede de parceiros.

