As decisões do varejo global não se distribuem de forma aleatória pelo mundo. Elas tendem a se concentrar em territórios capazes de reunir escala econômica, empresas líderes, integração produtiva e influência cultural. Na América Latina, esse lugar é São Paulo. Mais do que um grande mercado consumidor, a cidade se consolidou como um centro de poder decisório do varejo, onde se definem estratégias que impactam cadeias produtivas, fluxos comerciais e padrões de consumo em escala nacional e internacional.
O peso econômico do varejo no Brasil ajuda a dimensionar essa centralidade. Em 2023, o setor movimentou R$ 2,2 trilhões, o equivalente a 20,45% do PIB brasileiro, confirmando sua posição como um dos principais motores da economia, evidenciando a capacidade do varejo de articular consumo, emprego e renda. Dentro desse cenário, São Paulo ocupa uma posição desproporcional. O estado e a capital concentram uma parcela significativa do faturamento, dos postos de trabalho e da massa salarial do setor, o que faz com que decisões tomadas no território paulista tenham efeitos diretos sobre o mercado brasileiro como um todo e, cada vez mais, sobre circuitos globais.
Essa centralidade se fortalece com a presença, em São Paulo, de grandes empresas varejistas que figuram entre as maiores do mundo em seus segmentos. Grupos como Raia Drogasil, Casas Bahia e Natura mantêm na cidade suas sedes corporativas e centros de decisão estratégica. É a partir da capital paulista que essas empresas definem investimentos, políticas de inovação, estratégias de expansão internacional, práticas de sustentabilidade e modelos de relacionamento com consumidores e fornecedores. A cidade, portanto, não apenas executa diretrizes globais, mas participa ativamente de sua formulação, consolidando-se como polo de governança corporativa do varejo.
O papel de São Paulo se amplia quando se observa sua integração com a indústria, especialmente a têxtil e de confecção. O Brasil tem a quinta maior indústria têxtil do mundo e abriga a maior cadeia têxtil completa do Ocidente, segundo a ABIT. Nesse contexto, São Paulo funciona como elo central entre produção e consumo. O estado responde por 15% das exportações nacionais de têxteis e confecção, o equivalente a US$ 795,4 milhões, em um cenário no qual as exportações brasileiras do setor somaram US$ 5,18 bilhões até novembro de 2025. O município de São Paulo, sozinho, representa 24% das exportações estaduais e 4% das nacionais, reforçando sua condição de porta de entrada e saída para o comércio global.
Essa capacidade de articular indústria, varejo e comércio exterior confere à cidade uma vantagem estratégica. A proximidade entre centros produtivos, sedes empresariais, infraestrutura logística e mercados consumidores cria um ambiente no qual decisões podem ser tomadas de forma rápida e informada, alinhando interesses locais a demandas globais. São Paulo se posiciona, assim, como um hub que conecta cadeias produtivas brasileiras a mercados internacionais.
Além da dimensão econômica e produtiva, São Paulo exerce um papel simbólico fundamental no varejo global. A cidade é o maior centro de moda e consumo da América Latina, influenciando tendências que extrapolam fronteiras nacionais. Estilos, comportamentos de consumo, estratégias de marca e narrativas publicitárias frequentemente emergem no ambiente urbano paulistano antes de se disseminarem para outros mercados. Esse capital simbólico faz com que São Paulo influencie o varejo em números, valores, estética e comportamento.
Por todas essas razões, as decisões do varejo global passam por São Paulo. A cidade reúne escala econômica, empresas líderes, integração produtiva e influência cultural de forma singular no contexto latino-americano. São Paulo não é apenas um grande mercado: é o coração onde se articulam as estratégias que moldam o presente e o futuro do varejo no Brasil e no mundo.
*Alessandra Andrade é presidente da São Paulo Negócios

