Nos últimos anos, líderes de todo o setor cripto estabeleceram as bases técnicas e regulatórias necessárias para a adoção de longo prazo. Em 2026, esse investimento tende a dar retorno, à medida que uma infraestrutura confiável para ativos digitais e a ampliação de casos de uso impulsionam a demanda institucional, levando mais bancos, empresas e provedores a avançarem de projetos-piloto para operações em escala plena.
Essa transição deve se manifestar em quatro áreas-chave: stablecoins, ativos onchain, custódia cripto e automação por meio de inteligência artificial (IA). Cada uma delas contribuirá para uma integração mais profunda da tecnologia blockchain e dos ativos digitais ao sistema financeiro global.
A seguir, apresento os principais pontos de inflexão que, na minha avaliação, vão impulsionar a adoção institucional em 2026, com implicações de longo prazo para a Internet de Valor – uma rede global na qual o dinheiro se move tão rápido e facilmente quanto a informação na internet atual.
Stablecoins: o padrão para liquidação global
Nos próximos cinco anos, as stablecoins devem se integrar plenamente aos sistemas globais de pagamentos — não como uma infraestrutura alternativa, mas como a base fundamental. Essa mudança já está ocorrendo na prática, com gigantes como Visa e Stripe incorporando essas trilhas diretamente aos fluxos tradicionais.
Nos Estados Unidos, a aprovação do Genius Act inaugurou oficialmente a era do dólar digital. Stablecoins altamente compatíveis com a regulação e emitidas nos EUA — incluindo o Ripple USD (RLUSD) — devem se tornar o padrão-ouro para pagamentos globais programáveis, 24 horas por dia, sete dias por semana, além de servir como uma fonte crítica de colateral nos mercados financeiros modernos. Com a recente aprovação condicional do Office of the Comptroller of the Currency (OCC) para a criação do Ripple National Trust Bank, não estamos apenas seguindo as regras, mas estabelecendo um precedente para a conformidade institucional.
Até 2027, é razoável esperar que instituições financeiras passem a explorar o potencial das stablecoins reguladas para a mobilidade de colateral em tempo integral em casos de uso nos mercados de capitais. Embora existam aplicações voltadas ao varejo, o verdadeiro motor de crescimento está no B2B. Estudos mostram que, no ano passado, os pagamentos B2B se tornaram o maior caso de uso real das stablecoins, alcançando um volume anualizado de US$ 76 bilhões. Isso representa um salto expressivo em relação ao início de 2023, quando as transferências mensais B2B com stablecoins não ultrapassavam US$ 100 milhões.
A oportunidade vai muito além de uma liquidação mais rápida. As empresas mantêm volumes sem precedentes de capital de giro imobilizado — mais de US$ 700 bilhões parados apenas nos balanços das companhias do S&P 1500, além de mais de € 1,3 trilhão na Europa. As stablecoins abrem caminho para liquidez em tempo real, redução de custos de carregamento e ganhos relevantes de eficiência no fluxo de caixa. Esse conjunto de fatores explica por que as empresas devem liderar a próxima onda de adoção cripto.
A exposição institucional a cripto se torna mainstream
Os criptoativos evoluíram de instrumentos especulativos para uma camada operacional das finanças modernas. Até o fim de 2026, os balanços corporativos devem concentrar mais de US$ 1 trilhão em ativos digitais, e cerca de metade das empresas da Fortune 500 terá formalizado estratégias em ativos digitais — não apenas exposição a cripto, mas participação ativa em ativos tokenizados, tesourarias digitais, stablecoins, títulos do Tesouro onchain e instrumentos financeiros programáveis.
Os dados já apontam nessa direção. Uma pesquisa da Coinbase realizada em 2025 mostrou que 60% das empresas da Fortune 500 estão trabalhando ativamente em iniciativas de blockchain. Mais de 200 companhias abertas já mantêm bitcoin como parte de sua estratégia de tesouraria. E as empresas focadas em tesouraria de ativos digitais cresceram de apenas quatro, em 2020, para mais de 200 atualmente, com quase 100 criadas somente em 2025.
Paralelamente, o mercado de ETFs está se expandindo rapidamente. Mais de 40 ETFs de cripto foram lançados em 2025, mas, juntos, ainda representam apenas 1% a 2% do mercado total de ETFs nos EUA. Essa diferença evidencia o amplo espaço para o crescimento da participação institucional.
À medida que a exposição a cripto se normaliza, os mercados de capitais tendem a acompanhar. Em 2026, a Mobilidade de Garantia deve se consolidar como um dos principais casos de uso institucionais, com bancos custodiantes e câmaras de compensação adotando a tokenização para modernizar a liquidação. A expectativa é que entre 5% e 10% da liquidação nos mercados de capitais migre para o ambiente onchain, impulsionada pelo avanço regulatório e pela adoção de stablecoins por instituições sistemicamente relevantes.
A grande consolidação da custódia
A atividade de fusões e aquisições no segmento cripto sinaliza maturidade, e não apenas crescimento. Em 2025, o volume alcançou US$ 8,6 bilhões, impulsionado principalmente pela participação institucional. A custódia de ativos digitais deve liderar a próxima fase dessa consolidação, à medida que bancos, prestadores de serviços e empresas cripto enxergam a custódia como um catalisador de suas estratégias em blockchain.
Um padrão claro já começa a se delinear. A custódia está se tornando cada vez mais comoditizada, o que pressiona provedores independentes a diversificar suas ofertas ou se integrar a plataformas maiores, estimulando uma maior integração vertical. Ao mesmo tempo, exigências regulatórias estão levando bancos a adotarem estratégias com múltiplos custodiantes para mitigação de riscos. Como resultado, é provável que mais da metade dos 50 maiores bancos do mundo formalize ao menos uma nova relação de custódia em 2026.
Além disso, a atividade de fusões e aquisições no setor vai além de operações entre empresas nativas de cripto. No último ano, o setor avançou de forma relevante sobre as finanças tradicionais e fintechs, como na compra da NinjaTrader pela Kraken e nas aquisições da GTreasury e da Hidden Road feitas pela Ripple.
Atrair o próximo bilhão de usuários — especialmente institucionais — exige tornar o uso de cripto radicalmente mais simples, mais seguro e profundamente integrado aos fluxos financeiros existentes.
A convergência entre blockchain e inteligência artificial
As transformações mais profundas nas finanças raramente ocorrem de forma isolada. Em 2026, blockchain e inteligência artificial devem convergir de maneira crescente, automatizando operações financeiras de formas até então impossíveis.
Stablecoins e contratos inteligentes permitirão que tesourarias gerenciem liquidez, executem chamadas de margem e otimizem retornos em acordos de recompra onchain, tudo em tempo real e sem intervenção manual. Gestores de ativos utilizarão modelos de IA combinados com infraestrutura blockchain para rebalancear dinamicamente exposições a ativos tokenizados e protocolos de rendimento em stablecoins, aproveitando plenamente a natureza ininterrupta dos mercados onchain.
A privacidade será um elemento central dessa expansão. Provas de conhecimento zero permitirão que sistemas de IA avaliem risco de crédito ou perfis de risco sem expor dados sensíveis, reduzindo fricções em operações de crédito e ampliando a adoção de ativos digitais em mercados regulados.
A interseção dessas duas tecnologias revolucionárias trará ganhos expressivos de eficiência e colocará nas mãos das equipes ferramentas que operam na velocidade da internet.
Um ano decisivo para o cripto institucional
O setor amadureceu. E, desta vez, o impulso vem de líderes financeiros focados em construir para o longo prazo.
As stablecoins vão sustentar a liquidação global. Ativos tokenizados passarão a integrar balanços institucionais. A custódia será o pilar da confiança. E o blockchain — cada vez mais combinado à inteligência artificial — automatizará operações que hoje ainda limitam os mercados.
Em última instância, 2026 deverá ser lembrado como o ano em que os criptoativos se tornaram parte fundamental da infraestrutura financeira global.

